Pensamentos Provisórios
Hildeberto Barbosa Filho
“[...] o que seria de mim sem São Petersburgo?”, indaga Dostoiévski, em carta ao irmão Mikhail. Que seria de um Drummond, sem as calçadas de ferro de Itabira do Mato Dentro? Que seria de um Augusto dos Anjos, sem as várzeas do engenho Pau d’ Arco? E de um Zé Lins, sem os canaviais que margeiam o rio Paraíba? E de um João Cabral de Melo Neto, sem as paisagens severinas do Nordeste? E de um Jorge Amado, sem os terreiros, as igrejas e os mares mortos da Bahia? E um Érico Veríssimo, sem o uivo dos ventos nos pampas gauchescos? E de um Machado de Assis, sem as ruas, ladeiras e becos daquele Rio de Janeiro do século 19? E de um Gabriel Garcia Marquez, sem os pastos mágicos de Cartagena? E de um Jorge Luís Borges, sem o fervor de Buenos Aires? E de um kafka, sem a sombra molhada das avenidas de Praga? E de Jomar Morais Souto, sem o cinzento da Ilha do Bispo, os casarões do Varadouro e o pôr do sol no rio Sanhauá? E de Guimarães Rosa, sem a topografia úmida e metafísica do grande sertão e suas veredas? Toda palavra literária ocupa um lugar e dispõe de uma geografia. Não obstante, só a sua espessura material, a sua posição no corpo da língua, sua sonoridade, seu brilho imagético, seu peso semântico e outros elementos, intrínsecos às suas exigências estéticas, a tornam, de fato, palavra literária.
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